Créditos: Informações retiradas de Lucas Agrella ao Estadão
(Postada em 09/01/2026)
Mesmo diante da expectativa de queda da taxa de juros, os preços dos imóveis devem manter a trajetória de alta em 2026, segundo especialistas do setor. Entre os principais fatores estão a escassez gradual de terrenos em áreas mais desejadas, a inflação dos custos de construção, a falta de mão de obra qualificada e a possibilidade de repasse de preços, que antes dos cortes na Selic era limitada pela capacidade de pagamento dos compradores.
Em 2025, o Índice FipeZAP registrou alta de 6,22% nos preços dos imóveis entre janeiro e novembro e de 6,92% em 12 meses. O preço médio do metro quadrado no país chegou a R$ 9.585, avanço acima da inflação do período, que foi de 5,17%. Em São Paulo, principal mercado imobiliário do país, o valor médio do metro quadrado ficou em R$ 11.882, com aumento de 4,4% em 2025 e de 4,93% em 12 meses até novembro. O índice considera anúncios de imóveis usados.
Já a consultoria Brain, especializada em inteligência de dados e monitoramento do mercado de lançamentos, aponta que o preço médio dos imóveis na cidade de São Paulo chegou a R$ 15,8 mil por metro quadrado em outubro, ante R$ 14,7 mil no mesmo período do ano anterior.
Para Fábio Tadeu Araújo, CEO da Brain, algumas cidades podem encontrar mais dificuldade para continuar elevando preços após altas expressivas nos últimos anos.
“Esse é o caso de Curitiba e Porto Alegre, por exemplo. Agora, Goiânia e Fortaleza são cidades com espaço para subir preços. Em São Paulo, tem espaço, mas não tanto. Depende muito da região e da tipologia, porque tem região que teve um monte de lançamentos”, afirma Araújo.
Na avaliação de Carlos Honorato, professor de economia da FIA Business School, a tendência de valorização gradual observada nos últimos anos deve continuar em 2026, mesmo considerando as incertezas típicas de um ano eleitoral.
“Provavelmente, teremos um cenário em que o governo tente abrir torneiras para se reeleger. Medidas mais popularescas para crédito ou pressão para baixar juros podem manter o mercado aquecido. A menos que haja uma crise internacional, a tendência é ter um crescimento e os preços sigam a tendência atual”, afirma Honorato.
Visão das empresas do setor
Empresas do mercado imobiliário também avaliam 2026 como um ano positivo para os negócios. O período será o primeiro a contar integralmente com a faixa 4 do programa Minha Casa, Minha Vida e com o novo compulsório da poupança destinado ao crédito imobiliário. As duas medidas têm foco na classe média, que enfrenta atualmente as maiores dificuldades de acesso à compra de imóveis.
Para Cláudio Carvalho, CEO da incorporadora de alto padrão AW Realty, o cenário é de otimismo moderado, com preços acompanhando a inflação, sem aumentos abruptos.
“Acredito que tanto no alto padrão – nosso principal segmento de atuação –, quanto na produção para as rendas média e média-alta – que irá se beneficiar de medidas anunciadas pelo governo, como o aumento gradual da disponibilidade do dinheiro da poupança para a habitação – haverá demanda consistente por imóveis”, diz Carvalho.
O executivo afirma ainda que a AW Realty atingiu, pela primeira vez, R$ 1 bilhão em Valor Geral de Vendas (VGV) lançado ao longo de 2025. Para 2026, a expectativa é de um desempenho semelhante, com possibilidade de crescimento adicional.
“Mas é possível termos algum crescimento, levando em conta a expectativa de queda da Selic dos atuais 15% para 12% ao ano”, afirma.
Já Bruno Sindona, presidente do Instituto das Cidades e fundador da holding Sindona, aponta para uma tendência de estabilização dos preços no segmento de classe média, com possibilidade de descontos.
“Podemos começar a ver descontos partindo das incorporadoras. As incorporadoras de médio padrão estão muito endividadas e querem liquidar os estoques com velocidade. Já estamos vendo hoje descontos em imóveis prontos porque as construtoras precisam quitar seus financiamento e baixar o nível de endividamento”, afirma Sindona.
Especializado no segmento de moradia popular, Sindona destaca que os projetos econômicos devem ter leve aumento de preços em 2026, impulsionados pela ampliação do financiamento da Caixa com recursos do FGTS e pelo aumento do custo da mão de obra na construção civil.
“Acredito também que ainda veremos um forte aumento de aluguéis porque o financiamento está mais difícil”, acrescenta.
Terrenos seguem como ponto de pressão
No mercado de terrenos — considerados a principal matéria-prima das incorporadoras —, a expectativa é de continuidade da alta de demanda e preços, em linha com o movimento observado em 2025.
Segundo Thomaz Brancati, sócio da Allrea, plataforma especializada em terrenos para empreendimentos, uma tendência para 2026 e para os próximos anos é a busca por áreas em cidades médias, com mais de 100 mil habitantes, e em regiões em processo de expansão urbana.
“Embora apresentem um volume menor de lançamentos, essas cidades possuem déficit habitacional relevante e menor nível de concorrência entre incorporadoras”, afirma Brancati.
De acordo com o especialista, os vetores de demanda por terrenos variam conforme a região do país. No Nordeste, a procura é impulsionada principalmente por empreendimentos de multipropriedade, enquanto no Sudeste a demanda deve se concentrar na incorporação residencial, especialmente na cidade de São Paulo, em busca de maior potencial de retorno financeiro.
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